Uma forma de estimular os agricultores madeirenses a continuar a produzir cereais é…fazer whisky. Foi isto que pensaram Maria Nascimento e Paulo Mendes, que já tinham o Vinha Alta, projecto de consultadoria na área dos vinhos tranquilos, e que se preparam agora para abrir uma destilaria nos Canhas, Ponta do Sol, Madeira. Vamos encontrar Maria num final de tarde na destilaria novinha em folha. As máquinas ainda nem sequer arrancaram – o alambique aguarda a vinda dos técnicos alemães para poder começar a funcionar. A pandemia não tem propriamente ajudado a que o projecto avance rapidamente – “as coisas estavam para arrancar quando o mundo parou” – mas, diz Maria, como tantos, também eles aprenderam com a experiência dos últimos meses que é preciso ter paciência e que não vale a pena querer correr.
Por isso, neste momento, enquanto aguardam, Paulo está a fazer rum agrícola (https://www.publico.pt/2019/07/13/sociedade/reportagem/-gastronomia-madeira-mundos-portugues-1877606) (ou aguardente de cana-de-açúcar) num dos Engenhos do Norte, em Porto da Cruz. Para o rum e para o vinho da Madeira, que já lançaram, optaram por trabalhar com parcerias. “Não podemos competir com o engenho, por isso faz todo o sentido a parceria”, explica Maria.

Além do vinho, têm experiência com cerveja – Paulo esteve ligado à construção da unidade de produção da Musa (https://www.publico.pt/2016/05/10/p3/noticia/musa-e-uma-cerveja-artesanal-que-sabe-a-portugal-e-ao-mundo-inteiro-1826072), em Lisboa.

Mas quando decidiram lançar um projecto próprio – “o Paulo queria fazer bebidas e eu queria ter um bar” –, acharam que tinham que procurar algo distintivo. “Achámos que a Madeira não tinha dimensão para cervejarias artesanais. E mais um produtor de rum ou de vinho da Madeira também não fazia sentido.”

Voltaram-se, por isso, para um produto de nicho: os destilados (têm, aliás, uma pequena participação numa destilaria artesanal em Edimburgo), para os quais vão usar fruta fresca da região, sobretudo banana e anona, mas também figo-da-índia (https://www.publico.pt/2018/10/26/fugas/reportagem/julieta-figosdaindia-terra-vinho-1848823) (a que na Madeira chamam tabaibo) e outros.

Para já, na destilaria há sacos com cascas de tangerinas para as primeiras experiências de produção de um gin, que pretendem lançar ainda este ano, e basta Maria entreabrir um deles para o delicioso aroma das tangerinas locais encher o espaço. Mas se esta ideia já tem algo de arrojado, “o topo de arrojo”, diz Maria, é o whisky.
Para perceber a ideia, é importante contextualizá-la um pouco. “Canhas era, em tempos, uma freguesia de avultada produção de cereal. E na busca de potenciais fornecedores de fruta para as nossas eau-de-vie encontrámos alguns produtores ainda fiéis à produção de cereal.” De início não foi fácil convencê-los, mas a persistência de Maria e Paulo acabou por dar resultado e, com o apoio do professor Manuel Gonçalves do CDISA (Centro de Desenvolvimento e Inovação Sociocultural e Agroflorestal) Quinta Leonor, que cedeu as sementes, conseguiram um campo de ensaio para a produção de centeio.
E as coisas começaram a mudar de figura. Hoje, conta Maria, já têm agricultores a O novo “ whisky” madeirense já começou a nascer graças à destilaria … https://www.publico.pt/2021/04/08/fugas/noticia/madeira-destilaria-ma…contactarem-nos, mostrando-se disponíveis para produzir cereal para o whisky. “Se tudo correr como previsto, iremos também lançar cevada à terra em 2022”, adianta. Para já, e com o centeio que pensam colher este Verão, vão produzir um whisky 100% de centeio (rye whisky) “com vincadas notas a especiarias”.

O processo de envelhecimento será iniciado antes do final de 2021 e planeiam manter o whisky nas barricas (de vinho da Madeira e apenas de varietais, para o que têm um acordo com a H.M.Borges) pelo menos durante três anos. Num e-mail que enviam já depois da visita da Fugas, Maria e Paulo sublinham um detalhe: “Escolhemos um rye whisky para iniciar produção desta bebida porque gostamos de um bom Manhattan – ou seja: pura gratificação pessoal!”. Em 2022 contam já ter condições para produzir um single malt, a lançar em 2025.

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